27 de julho de 2006

O EXÍLIO
"A pianista Maria João Pires abandonou o Projecto Educativo de Belgais, que desenvolveu no concelho de Castelo Branco, e decidiu ir viver para o Brasil, onde já pediu a autorização de residência." in Público

Esta partida para o exílio de uma das nossas maiores pianistas é sintomática do desafecto nacional pela iniciativa e pelo talento. Se olharmos a história vemos que os melhores foram sempre ou quase obrigados a partir para terras onde pudessem respirar. Existir, sem que a mesquinhez nacional os puxasse constantemente para baixo. Portugal é, de facto, como o deus mitológico que comia os seus filhos à nascença. Não nos amamos. Não queremos ver a excelência, muito menos distingui-la publicamente.
Maria João vai para a terra da energia do Olodum, das baianas que nos destroem o palato com os seus acarajés e para os domingos eternamente em festa, de caruru em caruru.
Os meus amigos bahianos é que têm sorte. E, aqui para nós, trocar Castelo Branco por Salvador da Bahia, não é uma troca, é um prémio.
Pena que ,não tarda nada, descubra que a saudade se instalou clandestina no quarto da empregada. Afinal foram os portugueses que inventaram a palavra. Percebe-se como.

25 de julho de 2006


O DESTINO DAS ESTRELAS

Hoje fiquei a saber duas coisas.
A primeira que o livro da Fátima Lopes está em primeiro lugar no top de vendas. É sempre tocante ver nascer uma escritora numa cara tão familiar.
A segunda que amanhã, de acordo com a Maya (outra que anima tão bem as manhãs) vou ter um problema de varizes. E eu que nem sabia que as tinha. Devem-me nascer esta noite, com certeza...

Só por isto já vale a pena não emigrar. Sim, senhora. Grande dia...!




22 de julho de 2006

SÁBADO DE MANHÃ

Tomo o pequeno-almoço e leio "A MANCHA HUMANA" do Philip Roth. Há que tempos que andava para comprar este título. Aconteceu, ontem. Na Fnac, essa espantosa armadilha para as carteiras de quem gosta de livros, discos e filmes. Adiante.
Às vezes é difícil definir o que é um bom escritor. Um formidável escritor. Geralmente, não nos lembramos de nenhum, ou sempre do mesmo. Mas, hoje, enquanto iniciava a leitura deste livro, lembrei-me dessa questão. Um bom escritor é aquele que carrega o gigantesco peso de uma língua nos braços como se segurasse um recém-nascido. Balança-a e mostra-a aos convidados, que somos nós, os leitores, como se fosse o pai e a língua acabasse de nascer. E mais: ainda mal começa a gatinhar, e já nós conseguimos ver todo o seu destino formidável. Os grandes escritores são simples. Porque extraordinariamente complexos. Nós, os que escrevemos (eu, pelo menos) ficamos sempre calados de admiração por este domínio da palavra e do conteúdo. Tomamos consciência do tempo e do talento que serão precisos para fazer o mesmo. E duvidamos seriamente de um dia nos aproximarmos desta "simplicidade". E o pior é que não adiantaria imitar. A Arte não se compadece com a imitação. E esta é a maior armadilha da escrita. A maior parte dos livros publicados são escritos por antigos leitores. Por vezes, por pessoas que ganham a vida a redigir notícias ou a elaborar spots publicitários. Confundem o teclar com o "escrever". A admiração pelo talento. Porque leram; porque querem reproduzir essa admiração. E é louvável este gesto, no sentido que pretende apenas retribuir o que se retirou com a leitura de tantos livros. Mas a Literatura é outra coisa. Está para lá da vontade . Mesmo da boa vontade.
O Philip Roth não é uma "leitura de Verão". Nenhuma editora o lançaria neste período de vendas. O tempo é de sol, mar, bronzeadores e revistas fúteis. Tempo de livrinhos.
Há um tempo para tudo. Mesmo para a distracção do calor.
O Verão é que passará depressa e o nosso tempo de vida será escasso.

20 de julho de 2006

ILUSTRADORES Gosto da Anna Laura Cantone, por exemplo. Mistura desenhos com colagens, criando dimensões e texturas. Em Portugal, podemos ver o seu trabalho em livros como o sarcástico UMA NOIVA BELÍSSIMA, de Beatrice Masini (Livros Horizonte).

19 de julho de 2006


BOAS FÉRIAS SR. DOUTOR!

Hoje, o presidente da república convidou, por nossa conta, os cheer leaders do parlamento. No final, pareciam todos muito satisfeitos uns com os outros. Amanhã vai tudo de férias. Dois meses. Devem estar exaustos. Não têm a vida regalada, por exemplo, dos professores, que continuam a trabalhar na papelada, depois de terem contido a enxurrada de hormonas adolescentes durante 10 meses.
Claro, que pelo caminho, ficamos com um conjunto de leis importantes por aprovar. Mas deviam ter o cu doído. De tanto o esfregar de umas cadeiras para as outras.
Vão lá a banhos, vão. Quando voltarem, estamos cá de novo para vos pagar o brutal esforço.

18 de julho de 2006

PEQUENOS PRAZERES

O Elogio da Ginja, o "tratado afectivo-gastronómico-literário" de Paulo Moreiras sobre o fruto e a bebida que foi recentemente editado pela QuidNovi, numa edição acompanhada pelas excelentes fotografias de Paulo Cunha, será lançado em Óbidos, uma das capitais nacionais da Ginjinha, no próximo sábado, dia 22, pelas 18.00h, no Museu Municipal.

O livro é óptimo e o seu autor também. Conjugação rara.

17 de julho de 2006

ENQUANTO O SOL ARDE

o país desmembra-se, derrete. famílias, as de gente livre e as de obrigação, empurram-se sobre o alcatrão escorregadio do mapa, em direcção às praias, aos festivais, à avó a quem se começa a telefonar em Junho e que tem um grande quintal, a mesa sempre posta e que fica contente por saber que a descendência não está morta, apesar do silêncio dos meses. os jornais ficam sem nada para escrever e desenterram o mexerico, escarafucham na não-notícia como quem é obrigado a tirar uma salsazinha dos dentes para manter o emprego. os livros de Verão flutuam até às prateleiras, levezinhos, levezinhos..., as páginas à prova de grãos de areia e de autoreflexão. faz tanto calor no nosso país que até as trovoadas seriam bem-vindas para alguns. mas as trovoadas são secas, não trazem nada dentro. mas que vida poderia coexistir com o agitar de asas das cigarras?

14 de julho de 2006

14 DE JULHO

Amanhã, a Inveja, a Imbecilidade e a Mesquinhez nacionais começam a ir a banhos.
Queira Deus que não regressem.
O país agradece.

10 de julho de 2006

LA VICTOIRE

Zidane ganha a bota de ouro do mundial.
Calculo que seja por não existir o prémio "Capacete de Ferro"...




6 de julho de 2006

na tempestade navega-se. a contragosto, contrariando o corpo do navio. quando os céus escurecem e as ondas se levantam à nossa volta parece que a morte nos atingirá mil vezes; que nada sob os nossos pés voltará a ser seguro. e contudo, ao parar para escutar vemos que é quase tudo barulho e luz; que os deuses que se riem de escárnio são vozes na nossa cabeça. na tempestade julgamos temer a morte mas é da vida que fugimos. por cima das nossas cabeças restam pássaros, pequenos, molhados, mas de asas abertas por entre as nuvens escuras. olho os meus pés descalços e vejo que ainda estão sobre tábuas feitas de uma árvore que um dia foi terrestre e agora se tornou em coisa marinha. e descubro que estou vivo. vivo no meio da tempestade, do vento que sopra, da chuva que cai. vivo, sobre a música das águas.

5 de julho de 2006

PRONTO, TÁ FEITO. ASSUNTO ARRUMADO

Por cá, todo o país está contente com os seus jogadores e treinador. Portugal resolveu seguir o exemplo brasileiro e deixar a França chegar à final. Mas lutaram com garra e coragem.
Não houve decepção. Apenas a ideia de que por uma vez, os lusitanos trabalharam bem.
Outros dias virão.

4 de julho de 2006

PESSIMISMO O(P)TIMISTA

Da Bahia chega-me esta charge optimista para os portugueses.
Provavelmente, vai ficar desactualizada já, já...




3 de julho de 2006

PARABÉNS!
Câmara municipal de Lisboa e o seu vereador pela organização do festival Village.
Todos os cinéfilos que sonham transformar Lisboa em São Francisco, agradecem.
Pena as salas vazias. Mas o que é isso ao lado de um ambiente tão alegre?!
NEVER ENDING STORY

"O presidente da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa, cuja comissão de serviço terminava hoje, foi reconduzido no cargo." in Público.
Depois de ter batido o pé e se ter auto-declarado insubstituível, Bénard da Costa não irá para o (nosso) bem merecido repouso. O homem que nos tem chagado a cabeça com o Johny Guitar, e com o mesmo filme do Antonioni há 26 anos, semana sim, semana sim, vai finalmente cumprir o seu dever de trazer aos contribuintes o mais inovador do cinema mundial. Assim, para a semana, espera-se o maravilhoso filme "Johny Guitar" e, para entusiasmo geral, vamos assistir a mais Antonioni.
Bem-haja a ministra que fez esta cedência e o primeiro-ministro que considera a cultura uma coisa simpática para a qual ninguém tem tempo.
Cada tiro, cada melro.

2 de julho de 2006

O SILÊNCIO MOMENTÂNEO DAS BANDEIRAS

Na minha rua, a enorme comunidade brasileira ficou calada de triste, por um momento. Foi pena, claro, ver partir o Brasil, candidato natural à copa. Mas o jogo tem dessas coisas.
Agora já se começa a ouvir, aqui em Lisboa, um "estamos com Portugal". Um voto com sotaque nordestino, paulista, baiano...
Pelo lado positivo, ficamos todos irmãos de novo. Ao menos isso.
Abraço para os amigos do outro lado.

1 de julho de 2006

HORÓSCOPO DO DIA

Hoje é sábado e faz sol. Estou sentado em casa, como na praia, o vento levanta-se um pouco e há areia que me incomoda de vez em quando. Mas ainda assim, há entre mim e o barulho das aves que grasnam e sujam as plantas com excrementos uma arriba fóssil. Hoje é sábado e não é o sábado mais perfeito de sempre. Mas ainda assim é o final de uma semana longa, feita de dias e mais dias.
Amanhã será domingo, ou não. Que importa?

Joaquin Sorolla